A LEITURA NA PRIMEIRA INFÂNCIA

A LEITURA NA PRIMEIRA INFÂNCIA
Leitura é a mais complexa habilidade linguística

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

COMO AJUDAR CRIANÇAS QUE TROCAM GÊ POR CHÊ




Vicente Martins

Uma professora do ensino fundamental me relata, por e-mail, o seguinte caso: “Tenho uma aluna que está na 3ª série e além de ter algumas dificuldades na leitura e na escrita, também apresenta um déficit fonológico”.
E prossegue a professora na descrição das dificuldades de sua aluna: “Ela não consegue emitir o som da letra g, troca pelo che. E também troca o d pelo t”. E conclui: “Gostaria de saber se você poderia me orientar sobre o que fazer para ajudá-la. A mãe já consultou fonoaudiólogos e parece que nada adiantou. Desculpe por incomodá-lo, mas gostei da maneira como abordou o problema no seu artigo "O papel dos pais na formação leitora dos filhos" e espero poder contar com sua orientação”.
O presente artigo se propõe a comentar a indagação da professora e propor uma reflexão lingüística e metalingüística sobre a aquisição das consoantes no primeiro ciclo do ensino fundamental.
Com relação ao sistema alfabético, existem duas dificuldades básicas para alunos que estão no primeiro ciclo do ensino fundamental (1ª a 4ª série, incluindo, agora, também, o ano inicial aos seis anos de idade). A primeira é quanto ao traçado das letras, sobretudo as letras minúsculas, que exigem informações de rotação, sentido e direção das letras durante o traçado das mesmas. Na verdade, o que está em jogo é a memória de curto prazo das crianças de guardar tantas informações espaciais e geométricas das letras. O traçado das letras e de todos os demais grafemas (diacríticos como o til, circunflexo, agudo etc), não poucas vezes, exige conhecimentos rudimentares das formas geométricas.
Aos três anos, por exemplo, uma criança deve copiar o desenho de um círculo; aos quatro anos, copiar uma cruz; aos cinco, um quadrado e aos seis anos, um triângulo e assim por diante. Quando sentem dificuldades para copiar estas formas geométricas, podemos, com uma certa segurança, afirmar que terão dificuldades também de desenhar as letras do alfabeto. Estas formas básicas têm os mesmos movimentos e rotações das letras do nosso alfabeto.
Partindo desta relação entre caligrafia e geometria, particularmente, as figuras geométricas, o professor poderá conceber o ensino das letras do alfabeto dentro de uma perspectiva interdisciplinar. Um círculo, na matemática, definido como uma superfície plana limitada por uma linha curva - a circunferência - cujos pontos são eqüidistantes de um ponto fixo - o centro, favorece o traçado das seguintes letras minúsculas: a b c d e g o p q u h m n s. E as maiúsculas: B C G O P Q U D S.
A cópia do desenho da cruz contribui sobremodo para o traçado das seguintes letras minúsculas do nosso alfabeto: v x z t. E também as maiúsculas: T X Z

´ A cópia do desenho do losango, quadrilátero plano cujos lados são iguais, a ser exigido, a partir dos cinco anos de idade, favorece as seguintes letras minúsculas: v x z. E as maiúsculas são: V X Z N N H I J L .
A cópia do desenho do quadrado, forma que tem os lados e os ângulos iguais, permite que o aluno possa traçar as seguintes letras minúsculas: t f z i j l r. E maiúsculas: A E F H I L M N P R.
A cópia do desenho do triângulo, um polígono de três lados, também chamado trilátero, dá uma idéia para o aluno como é o traçar, na forma minúsculas, das seguintes letras: v x z. E as maiúsculas: A V X Z
Uma outra dificuldade, quanto ao sistema alfabético, reside na consciência fonêmica da criança durante sua fase de aquisição da leitura e da escrita ortográfica. Há uma relação estreita entre as letras do alfabeto, que aparecem na escrita, e os sons da fala, a que chamamos fonemas, isto é, as vogais, as consoantes e as semivogais. Não é uma relação perfeita, biunívoca, mas equívoca. Como se fala não é como se escreve. Não é como um espelho. Um som que se escuta não é diretamente escrito da forma que nos chega à intuição ou percepção auditiva.
No caso relatado pela professora, refere-se a uma dificuldade da criança de não conseguir emitir o som da letra g, que o troca por chê. Da mesma forma troca o som do d pelo t.
O que se observa, pois, claramente, é que a dificuldade da criança reside na articulação das consoantes. De logo, observamos que são consoantes homorgânicas. O que é isso? Foneticamente, são sons que têm o mesmo ponto de articulação, embora se diferenciem por outros traços (diz-se de dois ou mais sons); p.ex.: [b], [p] e [m], que são pronunciados com a mesma oclusão labial. Ou ainda, são fonemas que têm pontos de articulações distintos, como /p/ (consoante labial) e /t/ (consoante linguodental.
Para atuar bem nesses casos, o professor precisa conhecer, teoricamente, alguns conceitos lingüísticos (nas definições e exemplos abaixo, recorreremos ao dicionário eletrônico de Houaiss). O primeiro conceito é o de consoante. O que é consoante? Foneticamente e do ponto de vista articulatório, diz-se de ou som em que a corrente de ar encontra, na cavidade bucal, algum tipo de empecilho, seja total (oclusão), seja parcial (estreitamento). Portanto, as consoantes são fonemas de difícil articulação ou produção da fala. Decanta-las, pois, um decifrar, um mistério para muitos alunos.
Pelo conceito de consoante, o fonema consonantal, como disse, é, particularmente, difícil de ser articulado, isoladamente. Quando em sílaba ou expresso em palavra, essa dificuldade é ainda maior. Por isso, podemos entender por consoante, foneticamente, um tipo de som que funciona nas margens das sílabas, ou seja, som assilábico, não constituindo o núcleo da sílaba, nem podendo formar sozinho uma sílaba.
Voltemos à observação da professora. A criança, segundo ela, troca /g/ por /ch/ e /d/ por /t/. Observemos que coloquei as consoantes entre barras para mostrar que são sons da fala e não letras. Pois bem, as consoantes /gê/ (como aparece no início das palavras gente e jeito) e /chê/ (como em cheiro ou xadrez) são constritivas. Isso quer dizer que em cada uma delas, durante a articulação, a corrente aérea é expirada e parcialmente obstaculizada, mas não interceptada, em algum ponto do canal bucal. Esta classe de consoantes inclui as fricativas, as laterais e as vibrantes.
As consoantes constritivas na língua portuguesa são realmente difíceis de serem articuladas durante a fase de aquisição da linguagem. São consoantes constritivas:/f/, /v/, /s/, /z/, /š/, / chê /, / gê /, /lhê/,/r/ e / rr/. Em outra palavras, as constritivas são consoantes em que a corrente expiratória passa por uma abertura apertada, formada em algum ponto do canal bucal, gerando um ruído semelhante ao de uma fricção.
Podemos lembrar situações de uso das constritivas como nas palavras a seguir: as consoantes do português /f/ como na articulação da palavra fato; /v/ como em vate;/s/ como em seta, massa, cio, traço, próximo;/z/ como em zoada, mesa, exército;/ch/ como em xadrez, ancho;/j/ como em jeito, gesto. Essa dificuldade fonológica, decerto, é responsável, decerto, por parte dos erros ortográficos em que há bastante troca de letras que representam, na escrita, estas consoantes, como no caso das letras X, J, G ou grupos de letras como CH e SS, os chamados dígrafos. Em geral, chamamos as alterações ortográficas, quando manifestos nos textos escritos, como “erros de motivação fonológica”.
Nessas alturas, não há como negar a importância do estudo da Fonética para aqueles que pretendem eficazmente alfabetizar em leitura. A Fonética é a parte da lingüística que estuda e classifica os elementos mínimos da linguagem articulada (fones, sons da fala) em sua realização concreta. A fonética articulatória é o ramo da fonética que trata da descrição do aparelho vocal humano e dos seus movimentos durante a articulação dos sons, classificando-os basicamente em função da sonoridade (atividade das cordas vocais), do ponto de articulação (local onde ocorre maior estreitamento do conduto orofaríngeo) e do modo de articulação (maneira como se dá o escoamento do ar). Com a fonética, podemos melhor entender o nosso dialeto e as razões que levam a um falar diferente, mesmo que estejamos em mesmo país, como ocorre com nós, brasileiros.
No mundo da escola, caberá ao professor do ensino fundamental também se apoderar de conhecimentos da Fonologia. Por Fonologia, devemos entender o estudo dos sons da linguagem humana ou o ramo da lingüística que estuda os sistemas de fonemas de uma língua ou das línguas em geral. Ou, ainda, e mais precisamente, a parte da lingüística que estuda os fonemas do ponto de vista de sua função na língua. Não há como o professor ou professora orientar ou corrigir bem alterações ortográficas do seu aluno sem uma base fonológica. Sem esse conhecimento, o aluno, por sua vez, não dá aquele “estalo” ou “ insigt”, pronto para a leitura inicial.
Diante desse tipo de dificuldade fonológica ou déficit fonológico, acho que trabalha, metodologicamente, do particular para o geral, do letra para o som, ou seja, partir de estratégias indutivas, não só são procedimentos mais científicos e criteriosos, como, ao certo, os mais recomendáveis para o professor ou professora levar a criança à consciência fonológica durante a fase de leitura inicial, no ensino fundamental, ou mesmo durante a produção da fala espontânea, na primeira infância.
Então, comecemos a falar mais sobre o som da letra gê. O gê é a sétima letra e quinta consoante do nosso alfabeto. Foneticamente, a letra g representa a consoante oclusiva velar sonora, quando antecede as vogais a, o, u (galo, goma, gude), quando formando grupos consonantais (grito, gnose, glória) e quando seguida da vogal u muda ou não (guerra, água, ou a consoante fricativa palatoalveolar sonora, se diante das vogais e e i (gesso, giz). No caso da dificuldade da aluna descrita pela professora, envolve, pois, a consoante fricativa palatoalveolar sonora e a surda.
Partamos, agora, para o o chê. Em geral, representado pela letra x ou pelo dígrafo ch é a vigésima segunda letra ou décima sétima consoante do nosso alfabeto. Foneticamente, representa 1) a consoante fricativa côncava palatoalveolar surda, como em xadrez, mexe, enxame; 2) o grupo consonantal [ks], como em fixo, nexo; 3) a consoante fricativa dental sonora [z], em exame, exército No campo gramatical, o x não é pronunciado como [ks], mas como uma fricativa côncava dental [z] antes de vogal (exímio, exogamia); antes de consoante, será fricativa côncava surda, dental ou palatoalveolar, dependendo do dialeto (exportar, exclamar), do mesmo modo que o x do prefixo extra- (extraordinário); se seguido de c, o conjunto é pronunciado como [s]: exceto, excelente.
Mas não podemos parar aqui. Há muito o que se dizer do xis como representante das consoantes portuguesas, presente na fala e na leitura ou na escrita ortográfica, a que podemos chamá-lo de grafema. Pois bem. Como grafema, o emprego do x- (xis inicial), do -x- (xis medial) e do -x (xis final) é objeto de convenção ortográfica em que entram, a um tempo, a tradição gráfica, a busca de fundamentação etimológica e fatores fonológicos; de modo geral, o x pode representar/x/ (como em caixa, xará),/s/ (como em próximo, trouxe),/z/ (exato, exorcismo) e/cs/ (como em fixo, nexo).
Observemos os casos abaixo de mais emprego do xis:
1) o x- é, sem discrepância, sempre pronunciado como/x/, mas seu uso ortográfico busca ser fiel ao étimo (gr., lat. ou de outra qualquer língua com tradição gráfica), ademais da convenção de que, se indigenismos (de preferência brasílicos) ou se africanismos, ademais de línguas exóticas não grafadas com caracteres lat., deve tb. ser com x-;
2) o -x- é objeto de algumas regras implícitas (é o que representa/x/ depois de ditongo ai - caixa, faixa -, ei - feixe, deixa -, oi ou ou - troixa/trouxa [salvo trouxe]), ademais das quais é objeto de algumas sistematizações: a) na seqüência aux-, se de base gr., é/cs/ (auxese, auxésico, auxético, auximate), se de base lat., é/s/ (auxiliador, auxiliante, auxiliar, auxiliário, auxiliarmente, auxiliável, auxílio); b) na seqüência axa-, é/x/ (axá, axabeba, axaboucado, axadrezado, axadrezar), mas/cs/ no grecismo axanto; c) nas seqüências axe-, axi-, axo- e axu-, é/x/ nos voc. que não sejam gr., lat. ou greco-latinos (axe, axevina, axi, contra - com/cs/ - axe, axial, axiologia, axiológico, axioma, axiomático [com/cs/ ou/s/], áxis, axófito, axóide, axótomo, axúngia); d) na seqüência baix-, como dito anteriormente, sempre como/x/; e) na seqüência baux-, flutua (ver o caso único de bauxita e cognatos); f) na seqüência deix-, sem equívoco,/x/ (como em deixa, deixação, deixado, deixar); g) na seqüência dex + (vogal)-, é sempre/cs/ (deximontano, dexiocardia), mas já em dext- o -x- vale como -s- final de sílaba ou como/cs/ em pronúncia afetada (dextante, dexteridade, dextra, dextrocardíaco, dextrogiro, dextrorso, dextrose); h) em diox-, vale sempre como/cs/ (dioxano, dioxia, dioxirribonucléico); i) em dix + (vogal)-, vale como/x/, salvo em díxico e díxis/cs/; j) em dox-, vale sempre como/cs/ (como em doxiclina, doxografia etc.); k) em enx-, vale sempre como/x/; l) em ex-, em Portugal corresponde a/ays/ antes de consoante e a/iz/ antes de vogal, sendo esse/s/ como se de final de sílaba; já no Brasil, antes de consoante, tanto ocorre a forma/eys/, quanto/is/, sendo esse/s/ o equivalente a final de sílaba, e/i/ ou/e/ +/z/, antes de vogal; nuns quantos casos, porém, o -x-, seguido de vogal, tem pronúncia não fixada, ora com/z/, ora com/cs/, p.ex., exametamorfismo, exantema, exantemático e derivados como exantropia, exantrópico, exarquia, entre outros.
Sobre o tê, representado pela letra t, podemos dizer que se trata da décima nona letra e décima quinta consoante do nosso alfabeto. Foneticamente, o t é uma letra que representa o fonema oclusivo dental-alveolar surdo, como na palavra talvez. Vale destacar que, em alguns dialetos do português do Brasil, entre os quais o carioca, a letra t antes da vogal [i] representa o alofone africado palatoalveolar surdo do fonema/t/, como em tia, mate
O dê é a quarta letra e terceira consoante do nosso alfabeto. O dê ou simplesmente d é a letra que representa a consoante oclusiva dental-alveolar sonora do português, como em dou. Em alguns dialetos do português do Brasil, entre os quais o carioca, a letra d antes da vogal [i] representa o alofone africado palatoalveolar sonoro do fonema.
Onde, então, residiriam as dificuldades na articulação dos fonemas acima descritos? Levanto, aqui, a hipótese, da sonorização. Por sonorização, devemos entender a passagem de um fonema ou de um som surdo a sonoro, pela entrada em vibração das pregas vocais (por exemplo, em português, as consoantes fricativas finais sonorizam-se antes de vogal ou consoante sonora, como na palavra dois, em doi[z] amigos, doi[z] dedos.
A consoante /t/ é surda. A /d/ é sonora. Lembremos aqui, a primeira queixa da professora: a criança “troca o d pelo t”. E por que isso ocorre? Porque os fonemas sonoros exigem mais da criança durante a produção da consoantes, especialmente as oclusivas e fricativas.
As consoantes sonoras são sons da fala que apresentam, em sua articulação, vibração das pregas vocais, pelas sucessivas aberturas e fechamentos da glote sob pressão periódica da massa de ar expirado, o que não ocorre com os fonemas surdos. Em português são geralmente sonoras as vogais e as consoantes/b/,/d/,/g/,/v/,/z. N. No campo gramatical, são sonoras as vogais, as consoantes líquidas e as nasais; as oclusivas e as constritivas formam pares opositivos em que uma consoante sonora se opõe a uma surda:/b/:/p/,/d/:/t/,/g/:/q/,/v/:/f/,/z/:/s/,/j/:/x/; além disto, as consoantes sonoras distinguem-se das surdas por uma articulação fraca ou branda.
As consoantes surdas, como já dissemos, anteriormente, são sons vocais em cuja articulação as pregas vocais não vibram, por estarem semi-abertas, sendo, portanto, inexistente a produção de ondas sonoras de origem laríngea (p.ex., os sons [p], [t], [f], [s] etc.). Na língua portuguesa, as consoantes oclusivas e as constritivas opõem-se duas a duas pelo seu caráter de surdas versus sonoras:/p/:/b/,/t/:/d/,/k/:/g/,/f/:/v/,/s/:/z/,/x/:/j/, Mattoso Câmara Jr.
Dependendo da região do falante ou do alfabetizando em leitura, o ensurdecimento pode ser também uma marca dialetal ou uma variação lingüística. O ensurdecimento é um fenômeno que consiste na perda da sonoridade de um fonema sonoro. As sibilantes e chiantes sofrem ensurdecimento antes de consoante surda ou pausa, como na palavra paz, em pa[z] duradoura, pa[s] terrestre).
E na prática, como proceder, para fazer a reeducação da fala ou da leitura? Explorar a glote e as cordas ou pregas vocais. Mais uma vez, o docente terá, para atuar bem na alfabetização em leitura ou na reeducação lingüística da fala, que se converter numa espécie de “médico” ou “fonoaudiólogo” de modo a entender que a chamada glote é uma abertura triangular na parte mais estreita da laringe, circunscrita pelas duas pregas vocais inferiores, com cerca de 16 mm de comprimento e abertura máxima de cerca de 12 mm.
Foneticamente, a glote é o espaço compreendido entre as pregas vocais e que, durante a respiração (e a articulação das consoantes surdas e das aspiradas), tem forma triangular, fechando-se na produção das vogais, das consoantes sonoras e dos glides (ou semivogais), quando o fluxo de ar, ao passar através das pregas vocais levemente relaxadas, ocasiona a sua vibração, a que se dá o nome de voz ou sonoridade, conforme definimos anteriormente.
Para entender melhor o conceito de corda vocal há de defini-la como cada uma das duas pregas localizadas logo acima das pregas vocais que serve para fechar a laringe durante a deglutição, impedindo a entrada de alimentos e partículas estranhas no sistema respiratório, não influindo na fonação.
Mais precisamente, pode ser entendia a corda vocal como cada uma das duas pregas que se estende ao longo das paredes da laringe a partir da cartilagem tireóide até a cartilagem aritenóide, relacionada com a produção da voz. Anatomicamente, a corda vocal é entendida como cada uma das duas pregas que se estende ao longo das paredes da laringe a partir da cartilagem tireóide até a cartilagem aritenóide, relacionada com a produção da voz.
Pedir que a criança coloque a mãozinha na garganta para sentir as vibrações ou não das cordas vogais durante a produção das consoantes sonoras (vibram) e surdas (não vibram) pode ser exercício extremamente mnemônico, eficiente e suficiente para a criança compreender as distinções entre os fonemas surdos e sonoros, e, doutra sorte, levá-la à consciência fonêmica, utilizando, para isso, e ludicamente, o próprio corpo, manto do ser e templo do espírito.

Vicente Martins é palestrante, pesquisador na área de dificuldades de aprendizagem relacionadas com a linguagem e professor de Lingüística da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.




COMO GARANTIR ATENÇÃO ESPECIAL AOS DISLÉXICOS
















Vicente Martins

Pais, educadores e disléxicos têm insistentemente me indagado, por e-mail, o seguinte: qual a lei que beneficia as crianças disléxicas?Cremos que a Constituição Federal de 1988, a Lei 9.394/94 e a legislação do Conselho Nacional de Educação dão amplo amparo aos educadores com dificuldades de aprendizagem relacionadas com a linguagem(dislexia, disgrafia e disortografia). Os disléxicos são portadores de necessidades educacionais especiais e sepecíficas de leitura.Temos alguns pontos a considerar. O primeiro: a Carta Magna é a lei maior de uma sociedade política, como o próprio nome nos sugere. Em 1988, a Constituição Federal, de cunho liberal, prescrevia, no seu artigo 208, inciso III, entre as atribuições do Estado, isto é, do Poder Público, o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”.O disléxico é portador de uma dificuldade, mas não de uma deficiência. Mas o legislador não teria incluído no conceito de deficiência o de dificultades de aprendizagem? Cremos que sim. Isso por conta da concepção de Estado, o social, voltado às questões sociais e de cidadania.A garantia constitucional resultava do compromisso liberal do Estado brasileiro de educar a todos, sem qualquer discriminação ou exclusão social e o acesso ao ensino fundamental, para os educandos, em idade escolar, sejam normais ou especiais, passa a ser, a partir de 1988, um direito público subjetivo, isto é, inalienável, sem que as famílias pudessem abrir mão de sua exigência perante o Poder Público.No dispositivo da Constituição de 1988, conforme observamos, há avanço e recuo jurídicos. Avanço quando diz que os portadores de deficiência devem receber atendimento especializado, preferencialmente na rede regular de ensino. Não obstante, há recuo quando traz ainda, no final dos anos 80, uma terminologia tacanha, excludente, ao fazer referência às pessoas com alguma necessidade especial, no âmbito escolar, como "portadores de deficiência”.Em se tratando de análise terminológica, fazemos hoje um desconto nas expressões jurídicas da Constituição Federal de 1988, porque estávamos, em 1988, em pleno final do século XX, cujo conceito de deficiência era herança da Medicina de séculos anteriores. A terminologia “portadores de deficiência” nos remete a um Brasil excludente que tratava seus doentes, deficientes ou não, como “portadores de moléstia infecciosa”. Este enfoque clínico, assim, perdurou até a Constituição Federal de 1988.A LDB é exemplo também de Lei Ordinária, abaixo, hierarquicamente, no ordenamento jurídico do país, da Lei Magna. Trata-se da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Diretrizes e Bases da Educação Nacional, uma lei derivada da Constituição Federal, fará o conserto (correção social) e concerto (sintonia internacional) da terminologia “portadores de deficiência” para “educandos com necessidades educacionais especiais”.No seu artigo 4º, inciso III, a LDB diz que o dever do Estado, com a educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de “atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino”. (grifo nosso)O quadro das dificuldades de aprendizagem absorve uma diversidade denecessidades educacionais, destacadamente associadas a: problemas psicolingüísticos (dislexia e disfunções correlatas), psicomotores, motores, cognitivos (atenção, concentração, percepção, memória) hiperatividade e ainda a fatores ambientais e socio-econômicos, como as privações de caráter sociocultural e nutricional.De logo, vemos os avanços do dispositivo da Lei 9.394/96: a) O atendimento educacional é gratuito. Portanto, a oferta do atendimento especializado, no âmbito da rede oficial de ensino, não pode ser cobrada; b) Pessoas em idade escolar são considerados “educandos com necessidades especiais”, o que pressupõe um enfoque pedagógico, ou mais, precisamente, um enfoque psicopedagógico, em se tratando do atendimento educacional. O corpo e a alma dos educandos são de responsabilidade de todos os que promovem a formação escolar.O artigo 58, da LDB, no entanto, vai misturar um pouco os enfoques clínico e pedagógico ao conceituar a educação especial “como modalidade de educação escolar, oferecida, preferencialmente, na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais”.No § 1º, do artigo 58, da LDB, o legislador diz que “haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial”. Aqui, revela a faceta mais médica do atendimento especializado, ao tratar os educandos com necessidades especiais como uma clientela. Clientela, como se sabe, refere-se ao doente, em relação ao médico habitual. Estaria aqui a faceta neoliberal da LDB?Os pareceres e a Resolução manifestos pelo Conselho Nacional de Educação são exemplos de legislação. Em geral, para ter força jurídica, são homologadas pelo Ministro da Educação e Desporto que as respaldam para aplicação na organização da educação nacional.Mais recentemente, as manifestações do Conselho Nacional de Educação, no esforço de construir um arcabouço de diretrizes nacionais para a educação especial, assinalam, no Parecer CNE/CEB n. º l7/2001, de 03 de julho de 2001 e a Resolução CNE/CEB n.º 02, de 11 de setembro de 2001, que os sistemas de ensino devem matricular todos os educandos com necessidades educacionais especiais.Uma pergunta, agora, advém: quem, no processo escolar, pode ser considerado um “educando com necessidade especial? A Resolução CNE/CEB n.º 02, de 11 de setembro de 2001, assim se pronuncia, no seu artigo 5º:l) Os educandos com dificuldades acentuadas de aprendizagem (inciso I). Esses educandos são aqueles que têm, no seio escolar, dificuldades específicas de aprendizagem, ou “limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares”.As crianças com dislexia e dificuldades correlatas (dislalia, disgrafia e disortografia), por exemplo, estão no grupo daqueles educandos com dificuldades “não vinculadas a uma causa orgânica específica”, enquanto as crianças desnutridas e com dificuldades de assimilação cognitiva, por seu turno, estão enquadradas entre “aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências”. Aqui, dislexia pode, sobretudo, ser entendida como uma dificuldade específica no aprendizado da leitura, comprometendo a soletração (decodificação textual) e a compreensão textual.2) Os educandos com dificuldades de comunicação e sinalização. Estas, no entender dos conselheiros, são as “diferenciadas dos demais alunos”, o que demandaria a utilização de linguagens e códigos aplicáveis. As crianças cegas de nascença, por exemplo, se enquadrariam neste grupo.3) Os educandos com facilidades de aprendizagem. Os conselheiros observam que há alunos, que por sua acentuada facilidade de assimilação de informações e conhecimentos não podem ser excluídos da rede regular de ensino. Aqui, o valor está em avaliar que são especiais aqueles que “dominam rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes” no meio escolar.A inserção de educandos com necessidades educacionais especiais, no meio escolar é uma forma de tornar a sociedade mais democrática. Da mesma forma, a transformação das instituições de ensino em espaço de inclusão social é tarefa de todos que operam com a alma e o corpo das crianças especiais.
Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail para contatos:
vicente.martins@uol.com.br




COMO A LINGÜÍSTICA EXPLICA A DISLEXIA




Vicente Martins

Para psicólogos, psicólogos e educadores lingüistas um dos gargalos para o diagnostico e tratamento das dificuldades específicas de leitura, no ambiente escolar, reside na compreensão de conceitos básicos e operatórios como dislexia e mau leitor. Como saber a diferença que há entre o conceito de dislexia e dizer que uma criança é mau leitor?
A dislexia é uma síndrome de origem neurológica. Pode ser genética (desenvolvida) ou adquirida (depois de acidente vascular cerebral, a AVC). O disléxico é potencialmente um mau leitor, embora consiga ler. O disléxico lê, mas lê mal, sua leitura é lenta e sofrível. Só um neurologista, a rigor, tem a competência técnica, em equipe multidisciplinar, juntamente com psicólogos e pediatras, afirmar se uma criança é ou não disléxica.
A dislexia é, pois, uma síndrome para atendimento médico, embora não se trate de uma doença. Para os educadores, o que inclui pedagogos, psicopedagogos e profissionais de ensino, dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de leitura ou mais precisamente o que entendemos por dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de leitura (DAL). Venho denominado de dislectogenia essa dislexia dita pedagógica.
Assim, poderíamos dizer que todo disléxico é realmente um mau leitor, mas nem todo mau leitor é disléxico. Uma má leitura não deve ser uma pista final para o reconhecimento do mau leitor, mas é uma pista preciosa para o diagnóstico do disléxico.
Nos meus estudos, tenho levantado a hipótese de um déficit lingüístico para a dislexia, o que me levaria, ainda, por sua vez, a um tipo de dislexia ou dislectogenia, a pedagógica, responsável, no meu entender, pela maioria dos casos das chamadas dislexias, no meio escolar; resultado da dificuldade que o aluno tem, durante a leitura, de fazer a correspondência grafema-fonema, isto é, de entender que ler é um mistério, porque não consegue a correspondência adequada do grafema ou letra ao fonema ou som da fala.
É nesse caso, o pedagógico, que está, pois, o verdadeiro mau leitor, que deixa de fazer uma boa leitura porque aprendeu a ler mal, porque a metodologia de ensino de leitura (global ou sintético) foi mal aplicada.
Um exemplo bem típico de dislexia pedagógica ou lingüística pode ser percebido partir desse relato de dificuldades do filho feito por sua mãe.
Relata-me a mãe o seguinte: tem um filho de 5 anos. Seu pai é músico. Conta-me que seu filho aprende com muita facilidade músicas até a parte instrumental, mas tem muita dificuldade em apreender a escrever seu próprio. Quanto tenta escrever o nome, segundo a mãe, escreve o U virado pra baixo o S ao contrario e sua fala já apresenta também dificuldades de ser compreendida pela própria família.
Ainda no relato, diz a mãe que a criança, antes, falava corretamente e, agora, apresenta dificuldades de fala e também costuma usar as duas mãos para fazer as atividades escolares. Às vezes utiliza a mão esquerda; outras, a direita, e tem muita dificuldade de apreender coisas simples, e sente muita “preguiça” a maioria das vezes para cumprir os deveres escolares. Pelo que lemos do relato, observamos que os sintomas de dificuldades de aprendizagem de lectoescrita (leitura e escrita) são de diversas ordens: distúrbios de rotação grafêmica (U virada pra baixo e S ao contrário) e de fala (incompreensiva).
A dislexia pedagógica acumula uma série de déficits que, claramente, afetam outras habilidades como fala, escrita e escuta. Aos 5 anos de idade, portanto, em processo de alfabetização, os métodos da escola parecem não atender às grandes expectativas dos pais quanto à alfabetização, o acesso ao código escrito, e ao letramento, isto é, aos usos sociais da escrita no cotidiano escolar.
Minha desconfiança, por exemplo, é que o método global, bem a gosto da maioria das escolas brasileiras, tem favorecido no Brasil o aumento de maus leitores.
Vicente Martins é professor da UVA, em Sobral, Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br

COMO LIDAR COM A DISLEXIA EM SALA DE AULA



Vicente Martins

Este texto tem por fim indicar os fatores que influenciam, na educação escolar, aparição da dislexia como dificuldade inesperada do aprendizado da leitura.
São quatro as habilidades da linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a escuta. Destas, a leitura é a habilidade lingüística mais difícil e complexa. A leitura é dos um processo de aquisição da lectoescrita e, como tal, compreende duas operações fundamentais: a decodificação e a compreensão.
A decodificação é a capacidade que temos como escritores ou leitores ou aprendentes de uma língua para identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para outro sistema de signo.
A aprendizagem da decodificação se consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou transcrição de um texto. Conhecer o alfabeto não significa apenas o reconhecimento das letras, e sim, entendermos a evolução da escrita como: a) a pictográfica (desenho figurativo), a ideográfica (representação de idéias sem indicação dos sons das palavras) e a fonográfica (representação dos sons das palavras). Toda palavra tem uma origem, uma motivação e, a rigor, não é absolutamente arbitrária como quis Ferdinand de Saussure, em seu Curso de Lingüística geral.
O agá, por exemplo, nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol, o italiano e o francês, pode indicar um fonema mudo, mas traduz, por sua vez, uma origem semítica heth. O grego, por exemplo, usou a letra h para representar a vogal longa eta. Por isso, toda palavra, em português, iniciada pela letra h (hoje, homem, história etc), é de origem grega.
A compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais complexos (ALLIENDE: 1987, p.27)
2. AS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA LEITURA
São três os verbos que definem as funções essenciais da leitura: a)transformar, b) compreender e c) julgar.
Transformar, em leitura, se dá quando o leitor converte a linguagem escrita em linguagem oral.
Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem.
Julgar é capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.
3. OS PROCESSOS DA CAPACIDADE LEITORA
O enfoque da Psicolingüística, ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada, considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis, cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação do mesmo e sua compreensão. Refiro-me aos processos básicos e superiores da habilidade leitora.
Os processos básicos da leitura são também chamados de “processos de nível inferior”. Sua finalidade é o reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro destes se encontram a decodificação e a compreensão de palavras.
Os processos superiores ou de nível superior têm por finalidade a compreensão de textos.
Os dois processos, isto é, os básicos e os superiores, devem ser considerados no ensino do português e na aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo interativo ou interdependente.
Os processos básicos, isto é, que se voltam à decodificação e à compreensão de palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em algum deles atua como um nó de gravata que impede o desenvolvimento dos processos superiores de compreensão leitora.
Processos preceptivos - O leitor atinge a decodificação através dos processos perceptivos e dos processos léxicos. Os processos perceptivos referem-se à percepção visual.
A percepção visual permite a extração de informações sobre cosias, lugares e eventos do mundo visível. Portanto, a percepção é um processo para aquisição de informações e conhecimentos, guardando estreita relação com a memória de longo prazo (MLP) e a cognição.
A percepção é uma das primeiras atividades que tomam parte do processo leitor e a forma mais específica da percepção visual. Aprendemos a ler com o poder do olhar.
Ao nos engajarmos na leitura, fixamos, inicialmente, nossa olhada nos símbolos impressos, isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em profundidade o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos percebem as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua. Ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas, na sua dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não explícito no texto.
Essa operação visual se dá assim: os olhos se movimentam da esquerda para direita mediante uns saltos rápidos denominados “movimentos oculares sacádicos”. No percurso da leitura, vamos alternando fixações e movimentos sacádicos e somente podemos ler e compreender o que lemos nos períodos em que nos fixamos, em cerca de um quarto de segundo (com a faixa média sendo de cerca de 150-500ms com uma média de 200-250 ms) nos olhos no texto. (ELLIS: 1995, p.17).
A duração e amplitude das fixações e a direção dos movimentos sacádicos não variam arbitrariamente, e sim, dependem de: a) as características do texto, b) a maturidade dos processos cognitivos do leitor, c) a visão, d) a fadiga ocular, e) a iluminação, f) a distância olho-texto, g) a postura do corpo e h) o tipo de letra e papel.
Processos léxicos – Depois da análise perceptiva, o passo seguinte é chegarmos ao significado das palavras que, no ensino da língua materna, é, realmente, o que interessa aos professores, à escola e à família e aos próprios alunos. Se nosso objetivo é também a leitura em voz alta, então, devemos trabalhar a soletração, a entonação ou a pronúncia escorreita das palavras.
Dois são os caminhos que existem para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o significado das mesmas. Falaremos pois de duas rotas que nos ajudam no reconhecimento das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada via indireta (VI) e b) a rota visual ou léxica ou via direta (VD).
A rota fonológica - A rota fonológica é a que a nos permite a leitura de textos, segmentando-os, por força da metalinguagem, em seus componentes (parágrafos, períodos, orações, frases, sintagmas, palavras, morfemas), como também em sílabas ou em sons da fala (fonemas).
Baseia-se a rota fonológica na segmentação fonológica das palavras escritas, por meio da qual o leitor tem a alcança a chamada consciência fonológica. A rota fonológica é o guia prático para o alfabetizador que trabalha, em sala de aula, com o chamado método fônico de leitura.
A rota fonológica consiste em descriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou grafemas que compõem a palavra. Esta rota permite, na realidade, o reconhecer das letras das palavras e sua transformação em sons. Através desta via, portanto, podemos, como leitores hábeis, ler palavras pouco freqüentes (por exemplo, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, a maior palavra na língua portuguesa), desconhecidas e inclusive as pseudopalavras (MARTINS: 2002).
A rota fonológica é a via, pois, para se atingir a consciência fonológica, através da qual se podem ler todas as palavras em língua portuguesa, já que nosso idioma neolatino é alfabético e transparente, isto é, não tem palavras, a rigor, irregulares, impossíveis de serem lidas (exceto os estrangeirismos).
Podemos, enfim, resumir os objetivos da via fonológica no processo de aquisição da leitura:
· Identificar as letras através da análise visual
· Recuperar os sons mediante a consciência fonológica
· Pronunciar os sons da fala fazendo uso do léxico auditivo
· Chegar ao significado de cada palavra no léxico interno (vocabulário)
A via fonológica é mais lenta que a via direta já que o processo requerido é muito mais extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante e, inclusive, podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura dependem da consciência fonológica.
A rota visual ou direta ou léxica - É uma rota global e muito rápida já que nos permite o reconhecimento global da palavra e sua pronunciação imediata sem necessidade de analisar os signos ( significante e significado) que a compõem.
Os passos que temos na leitura de palavras através da via direta são:
· Analisar globalmente a palavra escrita: análise visual
· Ativar as notações léxicas
· Chegar ao significado no léxico interno (vocabulário)
· Recuperar a pronunciação no caso de leitura em voz alta
O modelo de leitura através da rota direta permite explicar a facilidade que temos para reconhecer as palavras cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto é, através desta rota podemos ler palavras que nos são familiares em nível de escrita. A rota direta é base para a prática do método global de leitura (também chamado construtivista)
Em qualquer caso, ambas as vias não são excludentes entre si As rotas fonológica e global são necessárias e coexistem na leitura hábil. À medida que a habilidade leitora se desenvolve, intensificamos as estratégias da via direta ou léxica ou ambas ao mesmo tempo.
4. FATORES QUE INFLUENCIAM A DISLEXIA
Os padrões de movimentos oculares são fundamentais para a leitura eficiente.
São as fixações nos movimentos oculares que garantem que o leitor possa extrair informações visuais do texto. No entanto, algumas palavras são fixadas por um tempo maior que outras.
Por que isso ocorre? Existiriam assim fatores que influenciam ou determinam ou afetam a facilidade ou dificuldade do reconhecimento de palavras, a saber: a) familiaridade, b) freqüência, c0 idade da aquisição, d) repetição, e) significado e contexto, f) Regularidade de correspondência entre ortografia-som ou grafema-fonema e g) Interações. (ELLIS: 1995, p.19-28).
5. A DISLEXIA COMO FRACASSO INESPERADO
A dislexia, segundo Jean Dubois et alii (1993, p.197), é um defeito de aprendizagem da leitura caracterizado por dificuldades na correspondência entre símbolos gráficos, às vezes mal reconhecidos, e fonemas, muitas vezes, mal identificados.
A dislexia, segundo o lingüista, interessa de modo preponderante tanto à discriminação fonética quanto ao reconhecimento dos signos gráficos ou à transformação dos signos escritos em signos verbais.
A dislexia, para a Lingüística, assim, não é uma doença, mas um fracasso inesperado (defeito) na aprendizagem da leitura, sendo, pois, uma síndrome de origem lingüística.
As causas ou a etiologia da síndrome disléxica são de diversas ordens e dependem do enfoque ou análise do investigador. Aqui, tendemos a nos apoiar em aportes da análise lingüística e cognitiva ou simplesmente da Psicolingüística.
Muitas das causas da dislexia resultam de estudos comparativos entre disléxicos e bons leitores. Podemos indicar as seguintes: a) Hipótese de déficit perceptivo, b) Hipótese de déficit fonológico e c) Hipótese de déficit na memória.
Atualmente os investigadores na área de Psicolingüística aplicada à educação escolar, apresentam a hipótese de déficit fonológico como a que justificaria, por exemplo, o aparecimento de disléxicos com confusão espacial e articulatória.
Desse modo, são considerados sintomas da dislexia relativos à leitura e escrita os seguintes erros:
a. erros por confusões na proximidade especial: a) confusão de letras simétricas, b) confusão por rotação e c) inversão de sílabas
b. Confusões por proximidade articulatória e seqüelas de distúrbios de fala: a) confusões por proximidade articulatória, b) omissões de grafemas e c) omissões de sílabas.
As características lingüísticas, envolvendo as habilidades de leitura e escrita, mais marcantes das crianças disléxicas, são:
· A acumulação e persistência de seus erros de soletração ao ler e de ortografia ao escrever
· Confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças sutis de grafia: a-o; c-o; e-c; f-t; h-n; i-j; m-n; v-u etc.
· Confusão entre letras, sílabas ou palavras com grafia similar, mas com diferente orientação no espaço: b-d; b-p; d-b; d-p; d-q; n-u; w-m; a-e.
· Confusão entre letras que possuem um ponto de articulação comum, e, cujos sons são acusticamente próximos: d-t; j-x; c-g;m-b-p; v-f
· Inversões parciais ou totais de silabas ou palavras: me-em; sol-los; som-mos; sal-las; pal-pla.
Segundo Mabel Condemarín (1987, p.23), outras perturbações da aprendizagem podem acompanhar os disléxicos:
· Alterações na memória
· Alterações na memória de séries e seqüências
· Orientação direita-esquerda
· Linguagem escrita
· Dificuldades em matemática
· Confusão com relação às tarefas escolares
· Pobreza de vocabulário
· Escassez de conhecimentos prévios (memória de longo prazo)
Agora, uma pergunta pode advir: Quais as causas ou fatores de ordem pedagógico-lingüística que favorecem a aparição das dislexias?
De modo geral, indicaremos causas de ordem pedagógica, a começar por:
· Atuação de docente não qualificado para o ensino de língua materna (por exemplo, um professor ou professora sem formação superior na área de magistério escolar ou sem formação pedagógica, em nível médio, que desconheça a fonologia aplicada à alfabetização ou conhecimentos lingüísticos e metalingüísticos aplicados aos processos de leitura e escrita)
· Crianças com tendência à inversão
· Crianças com deficiência de memória de curto prazo
· Crianças com dificuldades na discriminação de fonemas (vogais e consoantes)
· Vocabulário pobre
· Alterações na relação figura-fundo
· Conflitos emocionais
· O meio social
· As crianças com dislalia
· Crianças com lesão cerebral
No caso da criança em idade escolar, a Psicolingüística define a dislexia como um fracasso inesperado na aprendizagem da leitura (dislexia), da escrita (disgrafia) e da ortografia (disortografia) na idade prevista em que essas habilidades já devem ser automatizadas. É o que se denomina de dislexia de desenvolvimento.
No caso de adulto, tais dificuldades quando ocorrem depois de um acidente vascular cerebral (AVC) ou traumatismo cerebral, dizemos que se trata de dislexia adquirida.
A dislexia, como dificuldade de aprendizagem, verificada na educação escolar, é um distúrbio de leitura e de escrita que ocorre na educação infantil e no ensino fundamental. Em geral, a criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e, especialmente, em escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Quociente de Inteligência (Q.I) acima da média.
Além do Q.I acima da média, o psicólogo Jesus Nicasio García, assinala que devem ser excluídas do diagnóstico do transtorno da leitura as crianças com deficiência mental, com escolarização escassa ou inadequada e com déficits auditivos ou visuais.(1998, p.144).
Tomando por base a proposta de Mabel Condemarín (l989, p. 55), a dificuldade de aprendizagem relacionadas com a linguagem (leitura, escrita e ortografia), pode ser inicial e informalmente (um diagnóstico mais preciso deve ser feito e confirmado por neurolingüista) diagnosticada pelo professor de língua materna, com formação na área de Letras e com habilitação em Pedagogia, que pode vir a realizar uma medição da velocidade da leitura da criança, utilizando, para tanto, a seguinte ficha de observação, com as seguintes questões a serem prontamente respondidas:
· A criança movimenta os lábios ou murmura ao ler?
· A criança movimenta a cabeça ao longo da linha?
· Sua leitura silenciosa é mais rápida que a oral ou mantém o mesmo ritmo de velocidade?
· A criança segue a linha com o dedo?
· A criança faz excessivas fixações do olho ao longo da linha impressa?
· A criança demonstra excessiva tensão ao ler?
· A criança efetua excessivos retrocessos da vista ao ler?
Para o exame dos dois últimos pontos, é recomendável que o professor coloque um espelho do lado posto da página que a criança lê. O professor coloca-se atrás e nessa posição pode olhar no espelho os movimentos dos olhos da criança.
O cloze, que consiste em pedir à criança para completar certas palavras omitidas no texto, pode ser importante, também, aliado para o professor de língua materna determinar o nível de compreensibilidade do material de leitura (ALLIENDE: 1987, p.144)
Bibliografia e webliografia básicas:
ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas. CONDEMARÍN, Mabel, BLOMQUIST, Marlys. (1989). Dislexia; manual de leitura corretiva. 3ª ed. Tradução de Ana Maria Netto Machado. Porto Alegre: Artes Médicas.DUBOIS, Jean et alii. (1993). Dicionário de lingüística. SP: Cultrix.ELLIS, Andrew W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: uma análise cognitiva. 2 ed. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas.GARCÍA, Jesus Nicasio. (1998). Manual de dificuldades de aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática. Tradução de Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas.HOUT, Anne Van, SESTIENNE, Francoise. (2001). Dislexias: descrição, avaliação, explicação e tratamento. 2ª ed. Tradução de Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artes Médicas.MARTINS, Vicente. (2002). Lingüística Aplicada às dificuldades de aprendizagem relacionadas com a linguagem: dislexia, disgrafia e disortografia. Disponível na Internet:
http://sites.uol.com.br/vicente.martins/

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail: vicente.martins@uol.com.br

COMO SONDAR A DISLEXIA





Vicente Martins


Atualmente, os principais pesquisadores, na área de Psicologia cognitiva, Neurolinguística, Psicolingüística e Psicopedagogia, entre os quais destacaria as investigações de Anne Van Hout e Françoise Etienne autores Dislexias: descrição, avaliação, explicação e tratamento ( Porto Alegre: Artmed, 2001) consideram que a dislexia, ou mais exatamente as dislexias, são um conjunto de déficits cognitivos que têm sua origem na alteração cerebral que afeta uma ou mais funções que participam do processamento da leitura.A rigor, a dislexia vem ocupando a atenção dos dislexiólogos não apenas na vertente de aquisição e desenvolvimento da lectoescrita, mas o processamento de informação e do acesso do leitor ao código escrito.Se a má leitura tem sido adquirida em decorrência da alteração cerebral ou neurológica, fala-se em dislexia evolutiva ou desenvolvimental. Se o déficit aparece uma vez adquirida a leitura, fala-se em dislexia adquirida ou contraída. Seja lá como for, a dislexia não é uma doença, é uma síndromee sua etiologia, hereditária ou neurológica, levam-nos a crer que, dada sua raridade, não é tão simples seu diagnóstico. Por isso, a maioria dos médicos, prefere falar em déficit e não adotam o conceito dislexia. No meu entender, dislexia é um termo que pertence ao campo da lingüística clínica ou mais precisamente da psicolingüística ou psicopedagogia da educação escolar. Assim considerada, o que se tem observado, no meio escolar, em grande parte, não é a dislexia evolutiva ou adquirida, mas uma dislexia pedagógica que poderíamos chamar aqui simplesmente de dificuldade deaprendizagem relacionada com a leitura (DAL).Nos últimos anos, venho analisando relato de pais, especialmente das mães, quanto ao desempenho leitor de seus filhos. O caso mais recente é de Gadelha (nome fictício que dei ao sujeito de minha análise para preservar nome verdadeiro da criança). A mãe relata que Gadelha tem 12 anos de idade, mas ainda não lê bem nem escreve corretamente. Seguindo ela, Gadelha é portador de uma síndrome ainda não identificada pelos geneticistas.Atualmente, o tratamento de Gadelha é feito com um especialista em genética do Instituto Fernandes Figueira, no Rio de Janeiro. O último neuropediatra consultado, segundo a mãe, chegouà conclusão de que ele apresenta um foco de gliose no cérebro. O certo é que a criança tem um atraso no desenvolvimento, principalmente escolar, mas para outras atividades, como videogame e jogos de computador ele está bem avançado, a não ser quando os jogos dependem de leitura. A mãe de Gadelha acrescenta que a criança freqüenta a escola desde os 03 anos de idade, e, ainda, faz terapia fonoaudióloga, e mais, já teve acompanhamentos com psicopedagoga e psicólogos. Ele está cursando a 2ª série, mas não tem capacidade para acompanhar o ritmo da turma que freqüenta. A mãe, a todo custo, busca formas de conseguir melhorar o aprendizado escolar de Gadelha, pois um dos seus grandes objetivos é o de tornar Gadelha um adulto independente ecapaz.Outros relatos que chegam às minhas mãos , por e-mail, com uma certa freqüência, são do tipo da dificuldade de aprendizagem apresentada por Juanito. A criança, de 9 anos, está matriculado na 2a. série do primário. Juanito apresenta dificuldades de leitura e principalmente de escrita desde a alfabetização.Aos 5 anos, segundo mãe, Juanito foi estudar em uma escola particular. Lá, as professores disseram para mãe que Juanito tinha dificuldades visuais e escrevia com as duas mãos perfeitamente, inclusive numa mesma linha, dando continuidade ao assunto e desenhava de ponta cabeça todos os desenhos.Diante desse quadro, a mãe de Juanito achou que fosse uma fase escolar, de aquisição de aprendizagem, e por isso, não deu tanta importância. Aos 7 anos, Juanito, na 1a. série , depara-se com as estagiárias da escola da rede estadual deensino e estas alegam para mãe ele tem escrita espelhada. Informaram-na que ele troca letras, escrevia ao contrario, apresentava dificuldades na escrita, no entanto, aprendia todo conteúdo mas nas provas escritas, não conseguia notas por não conseguir interpretar e passar para o papel aquilo que entender os textos, no entanto, assegurava, a mãe, se as provas fossem orais, o rendimento seria, decerto, nota 10.São dezenas de relatos dessa natureza que diariamente tenho recebido, lido e analisado. E isso me levou a preparar, na verdade, a adaptar uma proposta de protocolo informal para o diagnóstico da dislexia pedagógica, isto é, que resulta, em grande parte, do modelo ou metodologia adotada pela escola para o ensino de leitura. Baseia-se a proposta em os critérios de exclusão, como baixo Q.I, privação cultural e método ruim de ensino da leitura na escola. Uma criança, com retardo, por exemplo, tem dificuldade de ler porque é retardada, mas suas limitações estendem-se para outras atividades da vida cotidiana.

Vicente Martins é professor da UVA, em Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br

COMO INTERVIR NOS CASOS DE DISLEXIA ESCOLAR





Vicente Martins


Para uma eficaz intervenção psicopedagógica nos casos de dislexia, disgrafia e disortografia, há necessidade de o profissional descrever a situação para poder explicar perante aos pais e à escola o que ocorre no cérebro das crianças com necessidades educacionais específicas. Isto significa dizer que terá a missão de representar fielmente o caso do disléxico em seu plano de trabalho, por escrito ou oralmente, no seu todo ou em detalhes. É através da descrição que o Profissional fará relato circunstanciado das dificuldades lectoescritoras, de modo a explicar, em seguida, as dificuldades lectoescritoras caracterizadas na anamnse. Uma descrição rica de detalhes historiais dos educandos com necessidades educacionais permitirá uma melhor elucidação das dificuldades de aprendizagem lectoescritoras e, também, justificará medidas mais seguras e eficientes no momento da avaliação e da intervenção psicopedagógica.
Outro verbo a ser conjugado pelo psicopedagogo é o de avaliar para intervir e a partir solucionar ou compensar a dificuldade do educando. Assim, descrito e explicado o caso psicopedagógico, o profissional que atua com as crianças, jovens ou adultos com dislexia, disgrafia ou disortografia poderá verificar, objetivamente, os dados das dificuldades levantados junto aos professores, pais dos alunos e os próprios alunos. A pauta, protocolo ou ficha de observação quanto mais ampla mais eficaz. As avaliações escolares tradicionais também não podem ser descartas ou negligenciadas uma vez que são verificações que objetivam determinar a competência do educando.
A intervenção psicopedagógica deve ocorrer quando o profissional se sente seguro teoricamente para praticar atividades que atuem diretamente nas dificuldades dos educandos disléxicos, disgráficos e disortográficos. A intervenção psicopedagógica é uma capacidade, advinda da experiência, de fazer algo com eficiência. Em geral, é um período em que alunos deixam, em algumas horas do seu tempo regular de estudo escolar, na própria instituição de ensino, a sala de aula e passam a receber treinamento específico para a superação de suas dificuldades.

Para ilustrar no artigo com exemplos reais de casos de dislexia, vamos expor, de forma sintética, relatos de pais, profissionais de educação da fala e educadores sobre dificuldades específicas na linguagem escrita de seus filhos e educandos:

1º caso - “ Fui chamada na escola de meu filho porque ele tem problemas com a escrita, faz trocas de letras como v/f, d/t, ele tem 9 anos está na terceira serie, pediram para que o leve para fazer uma avaliação com uma fono, queria saber se este caminho que devo seguir, ou o que devo fazer grata “


2º caso – “Tenho uma paciente de 27 anos que apresenta algumas dificuldades na escrita e na fala. Em uma das atividades que realizei com ela, a mesma apresentou-se nervosa ao ler,trocando algumas letras. Ao pedir para ela falasse qual o número que estava no dado, a mesma teve dificuldades; tendo dificuldade também em distinguir letras aleatórias, trocando principalmente as letras F e V. A paciente relata ser muito agressiva querendo bater nas pessoas e não gosta de "conviver" com elas. Sente ódio de todos.Gostaria de saber como faço para verificar se ela pode ter Dislexia?.”

3º caso – “ Tenho uma filha de 8 anos e meio diagnosticada com dislexia, além de ter disgrafia e disortografia. A Fono disse que a dislexia dele é bem leve. Ela lê razoavelmente bem, apesar de soletrar muitas vezes, principalmente as palavras pouco freqüentes, mas eu acredito que a disgrafia e a disortografia nela sejam um pouco mais severas que a dificuldade de leitura propriamente dita. Ela não consegue escrever uma frase sem cometer vários erros, em palavras que já escreveu várias vezes (sempre escreve valar ao invés de falar, xegou ao invés de chegou, soldade ao invés de saudade entre outras coisas) e a aparência gráfica de sua letra é muito franca, parece de criança ensaiando as primeiras letras. No entanto ela gosta muito de escrever, tem um diário, escreve historinhas, só que é uma luta conseguirmos decifrar o que ela quis dizer.Gostaria de saber, se poderia indicar alguma literatura, que contivesse exercícios especificamente para disgrafia e disortografia .”

Tomando, para a rápida análise e sistematização dos relatos de casos de dislexia acima, muito comuns nas queixas de crianças, pais e docentes, observaremos que, em geral, são estes indícios típicos de dificuldades em leitura, escrita e disortografia:

(1) progresso muito lento na aquisição das habilidades de leitura;
(2) problemas ao ler palavras desconhecidas (novas, não-familiares), que devem ser pronunciadas em voz alta;
(3) tropeços ao ler palavras polissilábicas, ou deficiências o ter de pronunciar a palavra inteira;
(4) A leitura em voz alta é contaminada por substituições, omissões e palavras malpronunciadas;
(5) Leitura muito lenta e cansativa;
(6) Dificuldades para lembrar nomes de pessoas e de lugares e confusão quando os nomes se parecem;
(7) Falta de vontade de ler por prazer;
(8) Ortografia que permanece problemática e preferência por palavras menos complexas ao escrever;
(9) Substituição de palavras que não consegue ler por palavras inventadas e (10) Problemas ao ler e pronunciar palavras incomuns, estranhas ou singulares, tais como o nome de pessoas, de ruas e de locais, nomes dos pratos de um menu.


Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br